Terça-feira, Junho 13

nenhum hades, nenhum céu

Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos.
Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.


Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
de todas as chegadas. A probidade do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.
Só os nosso animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de nenhum hades, nenhum
céu.




Inês Lourenço




post inspirado aqui e agradecendo às administradoras.
também fui
aqui deixar o meu testemunho. façam o mesmo.
estou em conflito com a netcabo e tenho de ir para os cafés ligar-me, daí o meu desapareciemnto.
um abraço a todos os meus amigos e amigas bloggers.
vou conseguir visitar-vos. até logo.


Terça-feira, Maio 30

se às vezes digo que as flores sorriem


E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.


Alberto Caeiro

Sábado, Maio 27

o mais é carne







cujo pó,
a terra espreita.



Fernando Pessoa

Quinta-feira, Maio 25

strip-tease






quanto mais me dispo
menos nu
me sinto



Jorge de Sousa Braga

Terça-feira, Maio 23

restos mortais




O que de nós mais dura: só esqueleto
que nos fez ósseos mais do que moluscos.
O resto acaba tudo: quanto foi sentidos,
vontade, amor, inteligência, carne,
e sobretudo sexo, o sexo acaba
e se desfaz na mesma pasta informe
e fim de tudo que não é só ossos,
apenas os detritos da armação mecânica
de que se pendurou por algum tempo,
em sangue e carne, o porque somos vida.



Jorge de Sena

Domingo, Maio 21

estou morto que venhas


Há muito tempo que não saio de casa (a não
ser para ir ao supermercado ou à gelataria)
Se soubesses a confusão de rios que vai no meu
quarto
Estou morto por te apresentar o Mississipi
Estou morto que venhas, estou morto por ouvir
o som irritante da campainha da entrada
Há muito tempo que não saio de casa
Se soubesses a vontade que tenho de passear
no interior da tua orelha



Jorge de Sousa Braga

Quinta-feira, Maio 18

o homem do talho morreu

Deixou mulher,dois filhos e carne fresca estendida como roupa
no varal. Lembro-me do orgulho com que passava a mão
pelo cachaço. Lembro-me da peixeira
que nos acordava de manhã «peixe fresco
tão vivinho» e como era caro o estertor do linguado.
Mesmo as alfaces são frescas depois de mortas,
o molho de nabiças, até de uma cenoura esperamos
que seja fresca ali no prato com o linguado rigorosamente
apartado das espinhas. Tão fresco! O homem do talho
vai a enterrar depois do almoço.
Agora jaz na capela mortuária
de rosto descoberto para a família e os curiosos.
O homemdo talho morreu cansado, mas agora está fresco:
foi abatido ontem, será embalado às quatro da tarde.



Rosa Alice Branco, poema emprestado pela Allegra, deste post, a quem agradeço muito.:)